sexta-feira, 18 de maio de 2018


 

No jardim de eurídice, nua e suplicante, desperta a  seiva nos dias de vitória.

Para lá do mar vivem os outros,  sofrem os outros e morremos todos.

No jardim de eurídice a relva é verde e os canteiros geométricos embalam os meninos nas sombras do entardecer.

Do outro lado do mundo a  geometria incerta  rasga as sombras povoadas de fantasmas.

No jardim de Eurídice  há canções de roda.

Nos lugares  concretos e definidos  o sangue corre exitante.

O jardim de Eurídice tem uma cidade à volta. Cheia de pessoas indecisas, homens com medo e crianças assustadas.

Naquele lugar incerto E  o medo que se teme em vez da sua figura.

 

Eurídice vive de olhos fechados pejados de rímel e  lápis cor de rosa.

Não sabe dos meninos embalados de olhos serrados, ssem rímel nem lápis de cor.

Eurídice vai a todo o lado, mas não está em lugar nenhum.

 

Não sabe dos que lutam sozinhos pela sua liberdade.

 

 

O  mar já não está do outro lado, e  Eurídice já não tem o seu jardim.

Mas a cidade permanece agora geometricamente incerta.

Já tem sombras povoadas de fantásmas e  meninos sem lápis de cor.

Já tem sangue a  correr pela rua, e  homens que lutam sozinhos.

 Abriu finalmente os olhos.

Mas agora Eurídice! É  tarde de mais.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018


             Os meus milagres de natal, em tempo que pode  ainda ser de reis.

 

 

   É normal dizer-se que passamos a vida a correr, e não prestamos atenção a tudo quanto de bom nos acontece na vida.

Somos de facto muitas vezes demasiado espectadores da nossa própria existência, daí ser verdade que não valorizamos o que nos acontece.

Nesta época de natal que estava no Auge à cerca de ummês, dei por mim a reparar em tudo quanto de bom fui recebendo das pessoas que me rodeiam. Todas aquelas pequenas coisas e  gestos convertidos em presentes de valor incalculável.

2017 Foi um ano louco, talvez por isso este exercício tivesse feito tanto sentido.Este ano de tão duras provas ajudou-me a  olhar para o  que mais importa, e  só por isso valeu a  pena.

 

   dia 22 de Dezembro, uma sexta-feira. No fim de um dia em que a  certa altura eu já não sabia para onde me virar, sou convidada para um jantar de família onde chego atrasada  vinda do trabalho. Rapidamente entro na conversa leve e  descontraída e  começo a  deixar o  cansaço para trás.

Mal acabo de    me sentar, o   meu filho que já lá estava, estende-me o  último pastel de bacalhau que resiste das entradas acompanhado da frase “ Guardei-o  para ti  mãe” Aquele gesto tão simples encheu-me de um misto de sentimentos que não consigo descrever em palavras. Só sei dizer que aquele dia desgastante vai ecoar para sempre na minha memória. Já em casa antes de adormecer, disse ao meu filho que fiquei muito feliz e  emocionada porele ter tido aquele gesto tão bonito. Ele respondeu-me, eu guardei porque sei que tu gostas e  vinhas cansada do trabalho. Quanddo  chegasses já não ia haver nenhum e  eu quis que tu também comesses um. Fiquei contente por te ver feliz.

Sim filho, fiquei contente. Fiquei feliz. E  acima de tudo tenho um orgulho imenso no ser humano gigante em que te tornas a  cada dia.

   No fim dessa sexta-feira, dei por mim sentada no chão da sala a  abrir algumas lembranças que troquei com algumas colegas que são também minhas amigas. Comecei a  recordar fragmentos das conversas surgidas quando trocamos os presentes, e  cheguei à  conclusão que eles têm um valor desmedido. São a  prova das marcas que dia após dia vamos deixamdo umas nas outras. Marcas que nunca se irão apagar.

Depois veio o  natal propriamente dito passado em família. Na  noite de 24 com  uma parte e  no dia 25 com outra. Para mim faz sentido dividir-me no natal entre as pessoas mais importantes da minha vida.assim  convivo com todos e  o  meu filho adora porque tem sempre outros meninos para brincar.

Foram dois dias de muitas gargalhadas, alegria e  partilha. Dois dias para manter firme a  certeza de que tenho nas mãos a  maior riqueza que existe,todos aqueles que estão sempre ao meu lado e  me viram crescer

Este ano o  meu natal teve muitos milagres. nos outros natais da minha vida também os houve, mas talvez eu não os tivesse conseguido descortinar no meio da agitação que quase sempre carregava..

Estive com a  minha família,  tive tempo para rever amigos, desfrutei da companhia do meu filho.Em suma permiti-me ser feliz. Que maior milagre podemos querer da vida?

 

segunda-feira, 13 de novembro de 2017


 

O que seriamos sem palavras.

Essas fórmulas mágicas.

Palavras que o  vento leva, silêncios imprecisos de quando elas nos fogem de repente.

Palavras ordenadas no caus dos dias de tormenta. Frases atiradas *a pressa sobre folhas de papel florido em momentos de puro êxtase

Palavras que alteram o rumo das coisas. Signos finais de caminhos traçados ao som de verbos conjogados em tempos e  pessoas de sintonizadas.

Significados que brilham como diamantes nas missivas mais obscuras. Entendimentos frágeis que se esbatem no deserto dos olhares desencontrados.

As palavras que me faltam agora, mas que em tempos me sobravam em hordas de luz e  cor.

As palavras que  procuro no vão dos dias inquietos que atravesso sem substantivos adjectivados no calor das tuas mãos nas minhas.

As  frases tão perfeitas que as tuas palavras mutilaram para sempre.

A dor da ausência sem sentido nem palavras.

A  verdade significativa com palavras a  mais e  despida de sensações.

O caminho que faço agora sem palavras.

A verdadeira causa  incipiente perdida na cadência das afirmações otrora claras.

O rumor da tua voz cada vez mais longínqua.

A lembrança do tempo em que tudo quanto menos precisamos foram palavras.

Aquilo que não disseste, tudo quanto jamais eu quis ouvir.

A vida que atravesso agora naufragando nos vestígios das palavras.

Pedaços de tudo o  que ficou por dizer, no acordo tássito a  que até elas se furtaram. E  umcaminho persistente que faço em busca de palavras sopradas pelo vento numa voz que se aproxima sem medo.

As  palavras antigas e  gastas que procuro  

quinta-feira, 9 de novembro de 2017


E  se deus fosse um de nós.

   Hoje dei por mim a pensar nisto enquanto fazia o caminho de regresso a casa.

Se deus fosse um de nós, perdido no trânsito, nas filas do super mercado, atafulhado em papeis numa qualquer repartição onde facilmente nos esquecemos dele.

Se deus se cruzasse comigo hoje, na tarde cinzenta e escura, por entre os devaneios de fim de dia, e  a  esperança que me acompanha sempre para todo o  lado.

Se me dissesse boa noite, está frio, tem muitas dúvidas na cabeça, menina, isso não faz bem, sonhe menos e  concretize mais.

 Ou então algo como, deixe tudo para trás, as coisas que a  magoam, o  que não tem remédio remediado está, a  vida é  bonita de mais para ser passada assim, entre casa e  o  trabalho, no meio de coisas e  coizinhas do dia-a-dia.

Poderia ainda perguntar-me o  que quero eu do  meu futuro, da vida, das pessoas que me rodeam, em suma o  que quero eu de mim mesma.

   Se deus fosse um de nós, talvez lhe pudesse dar a mão. Sentir o  calor da sua pele o  contacto dos seus dedos e  concluir que tudo segue o  rumo certo.

Talvez me bastasse encostar a  cabeça no seu ombro e  perguntar o  que posso eu fazer  para crescer.

Para onde devo ir, que livros deverei ler, que provas tenho que passar, o  que devo eu abandonar no cais de partida para a  viajem que continuu a  cada instante.

Se  ele  descesse à  terra, enquanto um de nós e  se misturasse connosco no redemoinho dos dias, talvez ficasse feliz em perceber que  viaja com muitos de nós a  todas as horas.

Que pensamos nele, lhe pedimos ajuda, mas acima de tudo continuaremos à  sua procura nos pormenores mais ínfimos, mas também nos mais importantes das nossas vidas.

Talvez deus seja um de nós. Talvez o  consigamos ver por aí nos sorrisos das crianças, no pòr do sol, no mar calmo por onde deslisam os navios.

Quem sabe se um destes dias ele não me dará a mão só para dizer e confirmar que está sempre lmá para mim, mas de tão absorvida no corropio do tempo eu insisto em não o ver.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017


Podem esperar que eu seja o tudo que se reinventa do nada.

Devem esperar que eu seja límpida e clara, que seja névoa e densidade.

Esperem sempre pela interrogação na minha boca, pela exclamação no meu peito, pela virgula antes de agir

Duvidem das minhas certezas, mas nunca das minhas convicções.

Acreditem que sonho, sonho muito antes de correr.

Interiorizem que quero sempre ser solução e não problema.  que serei semente em vez de flor

E  contra tudo                 o  que jamais serei, a  resposta é  ser mulher. 

segunda-feira, 30 de outubro de 2017


O  regresso dos pirilampos
Este verão regressaram ao meu jardim os pirilampos. Voltaram em noites de calor e tormenta. Vieram muitas vezes para alegria do meu filho que não se lembrava do dia em que ainda muito pequeno ficou rendido à magia dos bichinhos que brilham. Voltaram os luminosos pirilampos em tempo de dúvidas obscuras. Brilharam em noites de inquietude e escuridão. Nestes dias de viragem turbulenta e agreste, a luz incipiente vence aos poucos a tristeza nublada. A luz que tantas vezes nos foge, a claridade que desejamos, mas deixamos escapar por entre os dedos nos dias em que tudo nos sobra. A lufada de ar fresco que vem nas manhãs luminosas. É desta luz que preciso. aquela que brilha sem ofuscar. A luz que os dias nos trazem em forma de gente, de gargalhadas, de momentos partilhados no auge da cor.
Regressaram os pirilampos. Partiram as minhas ilusões sem brilho nem madrugada.
voltará aos poucos o brilho das palavras, a clareza das emoções.
Voltarei eu a iluminar o meu caminho e aprender a lição dos pirilampos.

Voar.

Deixar para trás tudo o  que nos prende.

Soltar amarras e  deixar florescer a  essência primordial que nos habita.

  Rasgar convenções.

Ter a  coragem de nos libertarmos de tudo o  que nos sufoca.

Partir, cortar, escrever nomes novos em histórias antigas, mas não lhes adivinhar o  final.

Abrir os olhos para a  liberdade sem o  medo do salto para o  vazio.

Fazer e  refazer a  nossa história sem nada do que fomos a  ensombrar-nos  os dias.

Crescer, viajar e  planar por um mundo a  quem abrimos a  porta e  a  claridade.

Chegar onde queremos sem medo da verdade dos outros, mas acima de tudo nunca abandonando a  nossa.

Existem lembranças que serão sempre aberturas de caminhos e  final de rota, instantes que nos farão para sempre voltar a  um ponto de partida, e nos voltarão ao mesmo tempo a  ensinar os novos percursos.

É  a força do que fomos que nos liberta para o  que queremos ser, e  deixa entrar em nós a  claridade.

 

Porque a vida renasce todos os dias, quanto mais soubermos libertar-nos do que não nos pertence, e menos tivermos a tentação de nos aprisionarmos e enredarmo-nos nas teias dos outros.