quarta-feira, 9 de novembro de 2016


Dardos


A quinta dos Dardos situada na freguesia de Creixomil, entre a Cruz de Pedra e a Quinta da Honra, foi desde meados dos anos trinta do século XX a morada da família Pinheiro.

Esta família de trabalhadores agrícolas marcou com o seu estilo muito próprio a vida da então freguesia rural de Creixomil.

António Ribeiro Pinheiro veio morar com a esposa e os filhos para a casa dos Dardos como caseiro, coabitando com a então proprietária da quinta dona Maria Adelaide Menino Douro. Esta casa, absolutamente peculiar até no que à geografia dos terrenos dizia respeito, viria a marcar de forma indelével esta família que então para lá foi residir.

O senhor Pinheiro era já então um pequeno comerciante no mercado da cidade de Guimarães, que complementava os seus rendimentos com o trabalho no campo. Alguns anos volvidos, aquando da morte de dona Adelaide, a quinta foi doada em testamento à Ordem de S. Francisco, passando esta instituição a geri-la juntamente com os rendeiros.

Dos 4 filhos de António Pinheiro e Clara de Freitas, foi Joaquina Pinheiro que juntamente com o marido, Domingos da Silva, com o qual casou em 1940, continuou na Quinta dos Dardos o trabalho dos seus pais. Deve, aliás, dizer-se que é com este casal, Domingos e Joaquina, que a mística da Quinta dos Dardos assume todo o seu significado.

Pais de 14 filhos, o senhor Silva e a Quininha dos Dardos, como eram carinhosamente tratados por toda a gente, deram, desde sempre, um colorido e uma dinâmica diferentes, não só aos trabalhos agrícolas aí realizados, mas também à vida comunitária em geral. Eram famosas as suas vindimas, onde se cantava e dançava até de madrugada e onde, certamente, começaram muitas histórias de amor impulsionadas pela alegria do momento. Não era, de facto, difícil aos caseiros da Quinta dos Dardos arranjar mão-de-obra para as suas tarefas, porque a fama das festas após e durante o trabalho era suficiente para angariar trabalhadores. A alegria e a boa disposição ajudam a curar muitos males e todos sabiam que jornada nos Dardos era sinónimo de diversão garantida. Igualmente famosas eram as desfolhadas, onde também marcava presença a concertina para vários pés de dança no final da festa, sempre regada a bom vinho e a excelente e farta comida. De facto, a dona Joaquina era uma cozinheira de mão cheia e fazia questão de servir aqueles que a ajudavam no trabalho do campo de forma digna, porque defendia ela que “quem trabalha tem que comer do bom e do melhor”.

Mesmo quando não era o trabalho a justificar, havia sempre um motivo para se convidar os amigos e vizinhos para um convívio agradável. Era o caso das reisadas, que, ainda hoje, deixam saudade a quem nelas participou, bem como os bailes ao fim de semana. A prova de que nos Dardos se vivia um ambiente diferente está nas tertúlias ao serão, onde quase todos os dias marcavam presença alguns dos muitos amigos dos filhos do casal. Esses serões onde se conversava, ria e confraternizava até bastante tarde permanecem na memória de todos quantos neles participaram, como testemunho da forma franca e aberta como lá se vivia e encarava a vida. Nunca se fechava a porta a ninguém, todos os que viessem por bem tinham lugar garantido no convívio da casa. Esta forma de estar na vida, sempre com respeito pelos outros e pelas suas opiniões e convicções, teve como consequência uma enorme abertura de espírito em todos quantos ali viveram e conviveram.

Até mesmo as festas da freguesia contavam com as fornadas de pão cozido nos Dardos. Mais uma maneira de ajudar e fazer crescer a comunidade onde estavam inseridos. A participação cívica de todos os membros da família em tudo quanto à freguesia dizia respeito era uma constante em todas as áreas.

Ali, mesmo em épocas de menos abundância, havia sempre uma tigela de sopa e um naco de pão para matar a fome a quem precisasse. E não eram assim tão poucos os que lá acorriam, sabendo da generosidade dos donos da casa. Foi comovente ouvir no funeral da Dona Joaquina, por mais de uma vez, alguém dizer que estava ali porque ela lhe tinha matado a fome muitas vezes. Sempre generosos e simpáticos, o senhor Silva e a esposa viviam na certeza de que tudo aquilo que se dá com vontade e prazer nunca fará falta. Pessoas dotadas de uma gigantesca sabedoria vinda da experiência eram exímios contadores de histórias de onde saía sempre uma moral, para quem ouvia, eram verdadeiros momentos de prazer pela forma como eram contadas.

O maior legado que este casal deixou aos filhos e netos foi este sentido de partilha e grandeza de espírito. Deixaram em todos bem aprendida a maior das lições, a de não julgar ninguém a não ser por aquilo que a pessoa realmente é. Estereótipos e preconceitos nunca tiveram entrada no dia a dia daquela casa. O facto de serem 14 irmãos que se ajudaram a criar uns aos outros, sempre com o exemplo dos pais a servir-lhes de suporte, fez de todos eles pessoas íntegras, honestas e altruístas e, acima de tudo, grandes amigos.

A escola da vida foi aquela que os ensinou a ensinar, e não foram precisas grandes letras para transmitir aos descendentes o que de melhor e mais rico se pode dar a todas as horas: amizade, proteção e apoio. Diz o ditado chinês que “não se deve dar o peixe, mas sim a cana para ensinar a pescar”. E foi o que estes pais deram de mais importante aos seus filhos, ou seja, as ferramentas para se tornarem, todos, homens e mulheres de coragem e fibra.

Ainda hoje, continuam a ser “um por todos e todos por um”, fazendo jus ao legado recebido e, simultaneamente, vão passando esta filosofia e forma de encarar a vida às gerações vindouras, permanecendo bem enraizado em todos o espírito de família.

Durante muitos anos, mesmo após a morte dos pais, os filhos continuaram a reunir-se na velha casa, assim perpetuando a mística daquele lugar. Mesmo depois desta ter passado para as mãos da Câmara Municipal, os Dardos continuam vivos nas pessoas que lá viveram.

Os terrenos da quinta deram lugar ao Pavilhão Multiusos e a casa ganhou novas valências, mas todos os que por lá passaram de uma maneira ou de outra têm bem presente a fortuna que ali ganharam.

 

Marta Pinheiro

(neta dos Dardos)

   A igreja que vive em nós.

Vivo em creixomil desde que nasci. A minha família, tanto materna como paterna, tem também aqui as suas origens. Praticamente  todos nós aqui recebemos o baptismo, e todos os outros sacramentos que marcam a vida dos católicos, e como tal estamos ligados a ela por laços que se perdem no tempo. A  minha história, e por consequência  a história da minha família confundem-se com este local de culto já tão antigo.

No meu caso particular, são muitas e muito marcantes as recordações que tenho desta igreja pequenina mas sempre a transbordar de dignidade. Lembro-me como se fosse hoje do dia em que ali entrei para fazer a primeira comunhão, era eu uma rapariguinha muito envergonhada. Recordo mais tarde o dia da minha profissão de fé, já a rapariguinha envergonhada tinha dado lugar a uma outra bem mais curiosa e questionadora, sempre com uma pergunta na ponta da língua, e uma vontade imensa de crescer para lá desta fronteira. Mais tarde foi o crisma, já jovem adulta e a navegar num turbilhão de dúvidas  típicas da idade e da própria vida. Tudo isto para dizer que a minha vida, ficou marcada de forma inquestionável por tudo o que vivenciei a partir da nossa pequena igreja. Aqui fiz amigos nos muitos anos de catequese. Conheci pessoas que me marcam até hoje por tudo o que me ensinaram, e porque me ajudaram a ser a pessoa que sou. Aqui brinquei em pequena e  mais tarde despertei para  a vida através das muitas amizades que fiz, das conversas que tive, das experiências que partilhei.

Não é por tanto de estranhar que muitas das minhas memórias mais marcantes venham directamente dar a  este espaço mais do que simbólico. Onde vi pessoas se unirem pelo matrimónio em dias de felicidade suprema, mas onde também assisti a  ritos fúnebres  de dor e despedida. Como em tudo na vida, os dois pólos andam inevitavelmente juntos mesmo que distantes, e  nenhum de nós lhes escapa.    

Para quem é de creixomil, a  igreja é um lugar de convergência. Um ponto de apoio, Um sítio especial  de onde todos têm uma recordação  que guardam no seu íntimo. Muitas das histórias que ouvi contar as minhas avós, mas também à minha mãe e às minhas tias,  tinham a igreja como palco. Vir à  missa  aos domingos, com a melhor roupa, e na perspectiva de poder namoriscar, era  o momento mais alto da semana, aquele pelo qual  todos  esperavam de forma ansiosa. Era também uma forma de esquecer  as por vezes muitas amarguras de vidas nem sempre  facilitadas pela dureza dos tempos.  Num Portugal pobre e  inevitavelmente atrasado, foi no salão paroquial que várias gerações de habitantes de creixomil souberam o que era uma peça de teatro, , uma sessão de cinema.  Era para a igreja que a  comunidade se voltava, porque nesta então freguesia rural era o que mais próximo estava, e  em quem as pessoas confiavam e  sentiam que estava com elas. Esta já não foia  realidade da minha geração, mas foi a  das gerações anteriores, o que acabou por fazer com que o respeito que os mais velhos tinham por este local de culto tenha passado para  os mais novos.

·          O  meu tempo já foi outro, o do Portugal recêm integrado na então CEE onde parecia haver dinheiro para tudo, e  onde todos acreditávamos que tudo iam ser rosas no futuro. Não foi assim, as rosas não são eternas e lá surgiram os espinhos, mas a igreja aqui continuou como dantes. já não tinha um papel tão  preponderante a  nível da divulgação cultural por exemplo, mas mesmo assim era lugar central da localidade, o marco no que a  geografia social dizia  respeito. Ainda hoje assim é, apesar de em moldes distintos. Tudo mudou muito rapidamente, mas a  importância dos rituais católicos continua a  estar muito presente nesta comunidade.

Para mim continua a  ser aqui que faz sentido aproximar-me de deus de forma simbólica.  Foi aqui que baptizei o meu filho, e aqui que ele frequenta  a catequese, tal como eu em criança. Mantêm-se a tradição, sem olhar para trás, e sem esquecer que tudo evoluiu e se transformou.  Continuamos a precisar de pontos de convergência, de faróis que risquem o céu e  nos digam que estamos em casa. Continuaremos sempre a  querer referências sólidas para nós e para os nossos, e  sabemos que a nossa igreja pequenina vai continuar aqui  a cumprir o seu papel nas nossas vidas.

Marta Pinheiro