quarta-feira, 9 de novembro de 2016


Dardos


A quinta dos Dardos situada na freguesia de Creixomil, entre a Cruz de Pedra e a Quinta da Honra, foi desde meados dos anos trinta do século XX a morada da família Pinheiro.

Esta família de trabalhadores agrícolas marcou com o seu estilo muito próprio a vida da então freguesia rural de Creixomil.

António Ribeiro Pinheiro veio morar com a esposa e os filhos para a casa dos Dardos como caseiro, coabitando com a então proprietária da quinta dona Maria Adelaide Menino Douro. Esta casa, absolutamente peculiar até no que à geografia dos terrenos dizia respeito, viria a marcar de forma indelével esta família que então para lá foi residir.

O senhor Pinheiro era já então um pequeno comerciante no mercado da cidade de Guimarães, que complementava os seus rendimentos com o trabalho no campo. Alguns anos volvidos, aquando da morte de dona Adelaide, a quinta foi doada em testamento à Ordem de S. Francisco, passando esta instituição a geri-la juntamente com os rendeiros.

Dos 4 filhos de António Pinheiro e Clara de Freitas, foi Joaquina Pinheiro que juntamente com o marido, Domingos da Silva, com o qual casou em 1940, continuou na Quinta dos Dardos o trabalho dos seus pais. Deve, aliás, dizer-se que é com este casal, Domingos e Joaquina, que a mística da Quinta dos Dardos assume todo o seu significado.

Pais de 14 filhos, o senhor Silva e a Quininha dos Dardos, como eram carinhosamente tratados por toda a gente, deram, desde sempre, um colorido e uma dinâmica diferentes, não só aos trabalhos agrícolas aí realizados, mas também à vida comunitária em geral. Eram famosas as suas vindimas, onde se cantava e dançava até de madrugada e onde, certamente, começaram muitas histórias de amor impulsionadas pela alegria do momento. Não era, de facto, difícil aos caseiros da Quinta dos Dardos arranjar mão-de-obra para as suas tarefas, porque a fama das festas após e durante o trabalho era suficiente para angariar trabalhadores. A alegria e a boa disposição ajudam a curar muitos males e todos sabiam que jornada nos Dardos era sinónimo de diversão garantida. Igualmente famosas eram as desfolhadas, onde também marcava presença a concertina para vários pés de dança no final da festa, sempre regada a bom vinho e a excelente e farta comida. De facto, a dona Joaquina era uma cozinheira de mão cheia e fazia questão de servir aqueles que a ajudavam no trabalho do campo de forma digna, porque defendia ela que “quem trabalha tem que comer do bom e do melhor”.

Mesmo quando não era o trabalho a justificar, havia sempre um motivo para se convidar os amigos e vizinhos para um convívio agradável. Era o caso das reisadas, que, ainda hoje, deixam saudade a quem nelas participou, bem como os bailes ao fim de semana. A prova de que nos Dardos se vivia um ambiente diferente está nas tertúlias ao serão, onde quase todos os dias marcavam presença alguns dos muitos amigos dos filhos do casal. Esses serões onde se conversava, ria e confraternizava até bastante tarde permanecem na memória de todos quantos neles participaram, como testemunho da forma franca e aberta como lá se vivia e encarava a vida. Nunca se fechava a porta a ninguém, todos os que viessem por bem tinham lugar garantido no convívio da casa. Esta forma de estar na vida, sempre com respeito pelos outros e pelas suas opiniões e convicções, teve como consequência uma enorme abertura de espírito em todos quantos ali viveram e conviveram.

Até mesmo as festas da freguesia contavam com as fornadas de pão cozido nos Dardos. Mais uma maneira de ajudar e fazer crescer a comunidade onde estavam inseridos. A participação cívica de todos os membros da família em tudo quanto à freguesia dizia respeito era uma constante em todas as áreas.

Ali, mesmo em épocas de menos abundância, havia sempre uma tigela de sopa e um naco de pão para matar a fome a quem precisasse. E não eram assim tão poucos os que lá acorriam, sabendo da generosidade dos donos da casa. Foi comovente ouvir no funeral da Dona Joaquina, por mais de uma vez, alguém dizer que estava ali porque ela lhe tinha matado a fome muitas vezes. Sempre generosos e simpáticos, o senhor Silva e a esposa viviam na certeza de que tudo aquilo que se dá com vontade e prazer nunca fará falta. Pessoas dotadas de uma gigantesca sabedoria vinda da experiência eram exímios contadores de histórias de onde saía sempre uma moral, para quem ouvia, eram verdadeiros momentos de prazer pela forma como eram contadas.

O maior legado que este casal deixou aos filhos e netos foi este sentido de partilha e grandeza de espírito. Deixaram em todos bem aprendida a maior das lições, a de não julgar ninguém a não ser por aquilo que a pessoa realmente é. Estereótipos e preconceitos nunca tiveram entrada no dia a dia daquela casa. O facto de serem 14 irmãos que se ajudaram a criar uns aos outros, sempre com o exemplo dos pais a servir-lhes de suporte, fez de todos eles pessoas íntegras, honestas e altruístas e, acima de tudo, grandes amigos.

A escola da vida foi aquela que os ensinou a ensinar, e não foram precisas grandes letras para transmitir aos descendentes o que de melhor e mais rico se pode dar a todas as horas: amizade, proteção e apoio. Diz o ditado chinês que “não se deve dar o peixe, mas sim a cana para ensinar a pescar”. E foi o que estes pais deram de mais importante aos seus filhos, ou seja, as ferramentas para se tornarem, todos, homens e mulheres de coragem e fibra.

Ainda hoje, continuam a ser “um por todos e todos por um”, fazendo jus ao legado recebido e, simultaneamente, vão passando esta filosofia e forma de encarar a vida às gerações vindouras, permanecendo bem enraizado em todos o espírito de família.

Durante muitos anos, mesmo após a morte dos pais, os filhos continuaram a reunir-se na velha casa, assim perpetuando a mística daquele lugar. Mesmo depois desta ter passado para as mãos da Câmara Municipal, os Dardos continuam vivos nas pessoas que lá viveram.

Os terrenos da quinta deram lugar ao Pavilhão Multiusos e a casa ganhou novas valências, mas todos os que por lá passaram de uma maneira ou de outra têm bem presente a fortuna que ali ganharam.

 

Marta Pinheiro

(neta dos Dardos)

   A igreja que vive em nós.

Vivo em creixomil desde que nasci. A minha família, tanto materna como paterna, tem também aqui as suas origens. Praticamente  todos nós aqui recebemos o baptismo, e todos os outros sacramentos que marcam a vida dos católicos, e como tal estamos ligados a ela por laços que se perdem no tempo. A  minha história, e por consequência  a história da minha família confundem-se com este local de culto já tão antigo.

No meu caso particular, são muitas e muito marcantes as recordações que tenho desta igreja pequenina mas sempre a transbordar de dignidade. Lembro-me como se fosse hoje do dia em que ali entrei para fazer a primeira comunhão, era eu uma rapariguinha muito envergonhada. Recordo mais tarde o dia da minha profissão de fé, já a rapariguinha envergonhada tinha dado lugar a uma outra bem mais curiosa e questionadora, sempre com uma pergunta na ponta da língua, e uma vontade imensa de crescer para lá desta fronteira. Mais tarde foi o crisma, já jovem adulta e a navegar num turbilhão de dúvidas  típicas da idade e da própria vida. Tudo isto para dizer que a minha vida, ficou marcada de forma inquestionável por tudo o que vivenciei a partir da nossa pequena igreja. Aqui fiz amigos nos muitos anos de catequese. Conheci pessoas que me marcam até hoje por tudo o que me ensinaram, e porque me ajudaram a ser a pessoa que sou. Aqui brinquei em pequena e  mais tarde despertei para  a vida através das muitas amizades que fiz, das conversas que tive, das experiências que partilhei.

Não é por tanto de estranhar que muitas das minhas memórias mais marcantes venham directamente dar a  este espaço mais do que simbólico. Onde vi pessoas se unirem pelo matrimónio em dias de felicidade suprema, mas onde também assisti a  ritos fúnebres  de dor e despedida. Como em tudo na vida, os dois pólos andam inevitavelmente juntos mesmo que distantes, e  nenhum de nós lhes escapa.    

Para quem é de creixomil, a  igreja é um lugar de convergência. Um ponto de apoio, Um sítio especial  de onde todos têm uma recordação  que guardam no seu íntimo. Muitas das histórias que ouvi contar as minhas avós, mas também à minha mãe e às minhas tias,  tinham a igreja como palco. Vir à  missa  aos domingos, com a melhor roupa, e na perspectiva de poder namoriscar, era  o momento mais alto da semana, aquele pelo qual  todos  esperavam de forma ansiosa. Era também uma forma de esquecer  as por vezes muitas amarguras de vidas nem sempre  facilitadas pela dureza dos tempos.  Num Portugal pobre e  inevitavelmente atrasado, foi no salão paroquial que várias gerações de habitantes de creixomil souberam o que era uma peça de teatro, , uma sessão de cinema.  Era para a igreja que a  comunidade se voltava, porque nesta então freguesia rural era o que mais próximo estava, e  em quem as pessoas confiavam e  sentiam que estava com elas. Esta já não foia  realidade da minha geração, mas foi a  das gerações anteriores, o que acabou por fazer com que o respeito que os mais velhos tinham por este local de culto tenha passado para  os mais novos.

·          O  meu tempo já foi outro, o do Portugal recêm integrado na então CEE onde parecia haver dinheiro para tudo, e  onde todos acreditávamos que tudo iam ser rosas no futuro. Não foi assim, as rosas não são eternas e lá surgiram os espinhos, mas a igreja aqui continuou como dantes. já não tinha um papel tão  preponderante a  nível da divulgação cultural por exemplo, mas mesmo assim era lugar central da localidade, o marco no que a  geografia social dizia  respeito. Ainda hoje assim é, apesar de em moldes distintos. Tudo mudou muito rapidamente, mas a  importância dos rituais católicos continua a  estar muito presente nesta comunidade.

Para mim continua a  ser aqui que faz sentido aproximar-me de deus de forma simbólica.  Foi aqui que baptizei o meu filho, e aqui que ele frequenta  a catequese, tal como eu em criança. Mantêm-se a tradição, sem olhar para trás, e sem esquecer que tudo evoluiu e se transformou.  Continuamos a precisar de pontos de convergência, de faróis que risquem o céu e  nos digam que estamos em casa. Continuaremos sempre a  querer referências sólidas para nós e para os nossos, e  sabemos que a nossa igreja pequenina vai continuar aqui  a cumprir o seu papel nas nossas vidas.

Marta Pinheiro

 

domingo, 26 de junho de 2016




ANJO CAÍDO
Há um anjo que brilha no fundo dos teus olhos. Ele sabe o teu nome mas não chama por
ti.
Há uma floresta densa no supé de uma colina para onde foste caminhando sem nunca lá
chegar.
Lá fora a neve reluz, branca e trémula. Foi sobre ela que andaste o dia todo, mas das
tuas pegadas nem sinal.
As crianças brincam alegres, na rua que te viu crescer Só de ti ninguém se recorda
Há uma casa pequena no fim de uma viela estreita virada para o rio. Foi nela que te
fizeste gente, Mas não há quem tivesse nunca sabido quem eras
Foi atrás de uma nuvem cde-rosa que correste, atravessaste o mar, onde ela se
desvaneceu.
Brincaste às escondidas com a lua  E acabaste por ficar para sempre no limbo Quanto à
lua continuou a brilhar prateada no céu azul
Subiste à mais alta das montanhas para de iá contemplares o mundo Porém a chuva
afogou o teu sonho
Escreveste versos cristalinos com as pedras da calçada Mas veio o alcatrão
Pediste à chuva que te regasse o canteiro Mas veio o sol para o ajudar a secar
Quiseste beber o mais doce dos licores Mas deixaste que o copo te escapasse por entre
as mãos frias.
Queimaste as cartas que julgavas saber de cor Porém com as cinzas negras o vento
levou também as tuas memórias.

sábado, 18 de junho de 2016


 


Se eu fosse mar e tu fosses virtude, estaríamos até hoje embalados na pacata palidez dos dias andados.
Se eu voltasse atrás, Contemplaria mais momentos breves ao pôr do sol. E escreveria mais poemas e menos lamentos apagados à medida que as emoções vão passando. Amaria mais vezes ao toque do piano esquecendo a lógica das melodias. Sentiria certamente mais a tua falta e nunca te deixaria sem saber da minha vontade de partilhar. Viajaria mais sem um destino programado, tentaria apenas chegar longe, onde o céu fosse mais azul e as mentes se emaranhassem na procura das respostas aos mais periclitantes sentimentos.
Se eu podesse teria escrito uma história. Era uma vez uma mancha negra no meio do céu. E não me punha em dúvida tão tarde. Pintaria um quadro impressionista para que ficasse para sempre comigo o retrato da minha escuridão. Navegaria menos nos momentos turvos e mais em ti e na tua expressão solida de quem não perde porque esperou. E não desistiria só porque as águas eram agitadas. Se eu soubesse, correria até te alcançar e amarrar-te-ia a mim com grilhões de fraternidade para semmpre e nunca mentiria aos desejos mais contidos.
Embarcaria numa qualquer madrugada para voltar às claras durante o imperar do equinócio. Mergulharia nas calendas do teu corpo para solver as más memórias que juntos partilhámos ao cair das janelas azuis. Gritaria aos quatro ventos que sou uma pedrada no meu próprio charco mas nem porisso deixo de sonhar com gargalhadas exfusiantes e virgulas na maior das angustiantes certezas. Cantaria uma cantiga à muito abandonada. E ouviria tudo o que me quizeste dizer e passou despercebido no meio da multidão em que me transformei. Por agora vou dezenhando luares, fragmentos de mapas onde a minha marca de água vai um dia fazer sentido. E sem saber quando espero que a multidão me abandone e me deixe ser uma só. E porque ao suave sintilar dos diamantes não chamamos brilho mas sim claridade, eu espero um dia que consigamos chamar à arrebatadora solidão em que vivemos, apenas vontade de esperarmos um pelo outro só pelo prazer do riencontro.

S

sábado, 11 de junho de 2016


 


AS TUAS MÃOS
Nas tuas mãos navego e grito finjo ser pátria local de morada porto de abrigo choro de criança grito de guerra vestido de seda sorriso de menina olhar de águia real e circo de feras.
Mãos que me prendem mãos que me agarram mãos onde me digo aos outros como a ti próprio. Sentidos onde sou como as outras, crédola e verde, sinderela e gata, prata e jasmim perfumado.
Mãos minhas, mãos de veludo mãos doces escorrendo sal, mãos ferozes e agrestes de tão brancas e ressequidas. Não são minhas porquê?
Não são do mar mas pescam com ele o saber cristalino dos fados convertidos em lamentos nos jardins de acácias. Mãos onde pousam as estrelas a caminho do luar de junho. Mãos de inverno repletas de neve fresca. Mãos silvestres, mãos com cheiro a vindima, mãos de outono e folhas secas, prenúncio de liberdade vendida, indicio de lucidez chorada.
Mãos de morte onde a vida se esvai sem aviso. Mãos de fada má. Asas de bruxa sonhadora. Sementes de ruído estéril. Certezas com ponto de interrogação. Sentimentos abandonados saudades das noites de concenso, em busca da divergência mor.
Mãos delicadas na força bruta da cratera para onde o destino nos quer arrastar. Simbolos chinezes de um oriente perdido na sombra da vergonha. Mãos de lã mãos de papel mãos de soldado mãos de viajante mãos da sorte comidas pelo asar de existir. Mãos de verdade para onde a mentira corre. Mãos de solidão, mãos frias porque oo calor lhes fujiu. Mãos quentes otrora, mãos vencidas agora. Mãos que tremem mãos por lavar mãos sem brilho, mãos pequenas para me abarcar aos poucos mãos suadas pelas horas pelos dias que passam devagar. Mãos que embalam os sonhos dos outros. Mãos de poente na timidez nascente mãos de paz de vida de morte de divino e gracioso manejar. Mãos curvas de retidão inquieta.
Mãos cansadas de ir e vir, mãos que ficam sem regresso.
julho 2004



 


Abre a porta, deixa entrar a leveza com que um dia te brindaram.
Abre a alma, permite que o choro te limpe as maguas e as arremesse para longe.
Abre os olhos, vive com a cara e a corajem de quem tem verdades múltiplas para
distribuir e chapéus recortados em papel colorido para emfeitar as manhãs de Inverno.
Abre o coração, por um segundo que seja e entra nem que só tu o faças e brinca com ele
sem regras nem limites.
Abre o livro, finge que não sabes quem lhe arrancou as páginas mais belas. Tu vais
voltar a escrevê-las.
Abre as asas, e plana por aí, aproveita para contemplar de cima a doçura harmoneosa
das pétalas de rosa suavemente tombadas à sombra dos dias.
Abre o armário, rasga as roupas, queima as cartas, os recortes de jornal, os papeis
velhos, as duresas novas, e parte! Sem nada que seja passivel de enfiar num outro
armário bafiento e podre.
Abre o horizonte, e se preciso for pinta-lhe navios, esculpe-lhe luzes, dezenha-lhe
virgulas retira-lhe pontos finais.
Abre a arca,lá guardarás o teu tesouro, a tua própria virtude. Saber sorrir.
Abre o pustigo, espreita a rua, olha como é bonita tem árvores, pessoas, ssuspiros vistos
à lupa e rostos perdidos por de trás dos corações.
Abre a janela, deixa o sol espreguissar-se até ao tutal ocultar da lua. Deixa que ele te  acompanhe na busca vorás da tranquilidade.
Abre a cama, deita-te e feicha os olhos. Amanhã o dia é novo e tu também.
Março 2003

Há um despertador para ouvir, um café para engolir, um casaco para vestir,um
transporte para apanhar. E um morto caído na rua.
Há sonhos para realizar, oportunidades para agarrar, lições para estudar, e horizontes
por abrir. Na esquina há um mendigo que crusa os braços e vê a vida passar.
As pessoas correm, os carros vooam, os apressados gritam, as crianças choram. Um
velho centado à soleira pergunta quando será o fim do pesadelo.
O trafego prossegue, o vento não se vislumbra que socegue, os homens baixam a
cabeça, os pássaros continuam a voar. E alguém queima o que lhe resta da vida 
breve num qualquer pó branco .
O pai não tem tempo, a mãe corre sem parar, os brinquedos são sempre os mesmos, os
sorrisos fojem à pressa. E o menino chora com fome de tanto ter comido
A cidade acorda, vive frenetica, cresce, enche-se de cores brilhos e fantasias aos
milhares. A prostituta permanesse na esquina à procura de um sentido contrario.
Nas montras tudo é belo, novo, suave, diferente, perfeito. A rapariguinha sonha ser
personagem de um filme já gasto, onde tudo morre antes de nascer .Lá longe as aves
passeiam livremente no ar. As gaivotas voam perto do mar, os animais descansam a
tarde está a comessar. Uma mulher agastada deseja o paraíso alcansar.
A noite cai devagar, o frio teima em apertar,no pensamento um desejo a casa poder
voltar. O sem abrigo sem nome só quer um canto para se aconchegar.
A cidade adormesse, o dia chegou ao fim. O homem morreu, o mendigo pensou, o velho
interrogou-se, o rapaz drogou-se, a prostituta iludiu-se, o menino chorou, a
rapariguinha sonhou, a mulher desejou, o sem abrigo conformou-se. A terra girou, e
tudo continuará a ser assim.
Janeiro de 2004

 


Algoddão doce
 sem marcas nem manchas nem vontade de ser aquilo que nunca fui, Penso por vezes em pintar o mundo de azul e a primavera de um verde claro que nem sempre encontra paralelo nas imagens que no decorrer dos dias vamos oferecendo em bandejas de prata, aquelas que tentamos vender aos outros como sendo a nossa essência. sob a forma de presente envenenado com um embrulho bonito e um laço dourado. Era bom se podessemos provar o algodão doce numa tarde calma de Verão com o som dos pássaros e da brisa em fundo com a lembrança das manchas escuras afastada do nosso horizonte, assim como se fosse um céu de onde as nuvens partiram à já algum tempo e não se vislunbra que voltem. seria como nos filmes onde no meio da trama já lá estamos dentro, a fazer de herói e de heroína, salvamos vidas, amamos, sorrimos, sonhamos, somos o que no bafiento gozo do dia a dia nunca conseguiremos ser. É a pensar nisto que vou comendo o meu algodão, sem pensar que amanhã e depois e depois e ainda mais tarde, vou continuar a ser eu, cheia de dúvidas, angustias, incertezas e tudo o que de incerto tem a vida. Porém aqui e agora apenas eu e o algodão doce.
Abril de 2002

A praia 


Era já tarde quando me deixei ficar por ali. O sol estava a pôr-se e a areia branca da praia mostrava os meus paços marcados pela lentidão do dia e da vontade. O mar ajitava-se contra as rochas, onde ia esculpindo um triunfo lento. Com o azul da água contrastava o negro que se aproximava no céu. Os barcos iam balançando diante de min como folhas abandonadas ao vento em dias de Outono. Havia pedaços de navios encalhados na viragem dos tempos, sem mar nem leme, rodiados de prosa salgada perante a ligeireza da paisagem. E eu ali me ia deixando estar, a ver passar as horas ao mesmo tempo que meditava vagarosamente seguindo o ritmo das ondas, ora mais depressa, ora mais devagar. Ia chegando a noite, e o mar cobria-se de repente de um manto dubiu dezenhado à pressa pelas fadas que tricotavam no céu uma manta de cores diverças. Aqui e além ia-lhe bordando matises negros para onde levavam as nuvens. Sem querer deixei-me adormecer por ali, em busca da maré que me enchesse de azul e me ancorasse nela até ao fim dos dias. Sonhei com marinheiros alados, e com a  ilusão das barcas naufragadas. Desejei marés vivas de emoção onde eu provasse vinhos quentes oferecidos por baco ao amanhecer. Acreditei emviajens pelos sentidos entre as grutas escondidas no seio das algas.
Mas tudo o que consegui, foi o impiadoso toque dos raios de sol, que me acordaram ao som do regresso dos navios.

quarta-feira, 8 de junho de 2016


Branco pérola

 

Pintado a branco pérola está o teu nome em mim.

Os gritos daqueles dias em que vinhas a correr e partias em seguida para uma volta incerta.

O negro das manhãs onde o branco pérola era uma miragem trocada pelo cru do azedume.

Vermelho era a cor dos dias tingidos pela raiva das palavras. O cruzar das setas pejadas de mágoa.

Nesses dias eu sonhava com o azul do mar em que me entreguei a ti sem armas nem bagagem, sem porto nem abrigo.

Escrevi nos dias azuis o teu nome a branco pérola. Deixei entrar a luz resplandecente dos fins de tarde, para me ajudar a pintar a tela perfeita.

Os tons dourados enfeitavam as noites quentes, onde brindamos ao canto sublime das cores primeiras.

Antes de cairmos no abismo cinzento de onde jamais logramos escapar.

O brilho cintilante aqueceu-nos os dias a branco pérola pintados.

  Fez-nos sonhar com cores iguais num desfile de manhãs claras.

Agora eu pinto os dias ao sabor de um arco-íris, que trouxe comigo no fim dos tempos cinzentos.

Desses ficou a marca impressa num coração enegrecido onde brilham muitas cores.

A branco pérola pintei o teu nome em mim. Tu pintaste um nome qualquer numa tela gasta pelos murmúrios do vento, e segues sem cor um caminho traçado a verde esperança, a cinza, preto, vermelho e dourado. Mas nunca a branco pérola.

 
Janeiro de 2011

sábado, 4 de junho de 2016


 

O regresso ao sabor da corrente

 

Depois de muito tempo, estou de volta a este meu cantinho de reflexões e memórias.

Irei trazer-vos textos e poemas de minha autoria sobre os mais vareados temas e épocas da minha vida.

Porque a corrente dos dias se faz dos elos mais distintos, sejam eles  originados pelas mais vareadas situações,Vamos até onde a corrente nos levar.

Nos últimos dias começo a olhar para dentro de mim. Como se de repente eu conseguisse focar a minha luz interior e a a nalisásse à lupa lentamente.

Gosto da nova mulher que renasce pouco a pouco depois do vendaval. Desta vez resolvi não colar pedaços de nada. Renasci sem sicatrizes, o que desencadeou em mim uma estranha sensação de conforto e leveza. Gosto desta rapariga madura e reservada, que se sente bem consigo mesma e  caminha a paços lentos mas seguros.

Mudei tanto desde que me conheço, que até édifícil de acreditar. Deixei de pensar no imediato, de querer o aqui e o agora. Deixei de mergulhar em turbilhões e redemoinhos, passei a caminhar em vez de correr.

Aprecio esta serenidade conquistada com muitos amargos de boca.

Vou construindo a minha casa peça a peça, dia a dia.

Ao fim de tanto tempo, posso finalmente dizer sem  rodeios nem subterfúgios que sou uma mulher feita de muitos fragmentos conquistados a custo, mas firmemente assentes na minha rocha.

 

Penso muitas vezes naquilo que teria sido diferente caso me tivesse esforçado por mudar o curso da minha vida. Mas mudar o curso da minha vida seria mudar demazeadas coisas. Faço isto apenas como mero instrumento de análise, porque realmente não vale a pena fazer deste encadear de hepóteses um objectivo.


Gosto dos meus livros empilhados na minha cabeça em retalhos e fragmentos muito bem ordenados e sequenciados.

Gosto de gatos, do seu ar misterioso e límpido de quem volta sempre  para junto de quem gosta. Gosto de os acariciar e sentir a pureza e a meiguice dos seus gestos.

  Gosto de me deixar levar pelo som dos pássaros nos fins de tarde enquanto desfruto da calma e da quietude dos dias cronometrados.

Gosto de chocolate. Não gosto de sabores amargos. Gosto  de pegar no meu filho e sentir aquele corpinho pequenino e doce a aquecer-me a alma e os dias. Gosto de o ouvir cantar com voz suave e meiga a transbordar de inocência e magia. Gosto do riso fácil de criança que me transporta para um mundo que é sempre claro e límpido. Adoro aquele rosto macio  onde a beleza maior tem a sua definição mais exacta.

Preciso como do ar que respiro, daquele movimento cadenciado dos seus paços, do vigor dos seus gestos, da frescura das suas palavras. A  minha vida bifurca-se, entrinca-se, corre e  vai-se colorindo com a dele, como um só sentido em duas direcções.

Gosto de respirar o ar puro das manhãs de primavera, e acreditar que com ele vêm sempre notícias boas, dias grandes, e  tardes de sol.

Não gosto do escuro.

Gosto de  contemplar uma casa arrumada com perfume a limpeza e  ideias novas.

Não gosto do vento forte. Baralha-me as ideias e o curso das horas.

Gosto de cantar. De pintar a vida com notas musicais de entrega.

Não gosto da despedida. De dizer adeus até sabe-se lá quando sem voltar a ter o hábito das conversas, dos sorrisos e  dos murmúrios.

Não gosto de gritos. Trazem agarrados o junco do desespero, sejam de raiva ou de triunfo.

Gosto da lentidão das manhãs de domingo, onde temos por momentos a ilusão de que comandamos o tempo e as horas.

Gosto de poesia, de a ler e saborear de  vagar no silêncio da noite.

Gosto de me deixar ficar à beira mar, a ouvir as ondas e a imaginar barcos carregados de sonhos e  espectativas  a ir e vir com as marés.

Sou alguém que cultiva a  amizade como uma planta rara e belíssima, cheia de flores e  vida.

 

   Julho de 2013