Dardos

A quinta dos
Dardos situada na freguesia de Creixomil, entre a Cruz de Pedra e a Quinta da Honra,
foi desde meados dos anos trinta do século XX a morada da família Pinheiro.
Esta família
de trabalhadores agrícolas marcou com o seu estilo muito próprio a vida da
então freguesia rural de Creixomil.
António
Ribeiro Pinheiro veio morar com a esposa e os filhos para a casa dos Dardos
como caseiro, coabitando com a então proprietária da quinta dona Maria Adelaide
Menino Douro. Esta casa, absolutamente peculiar até no que à geografia dos
terrenos dizia respeito, viria a marcar de forma indelével esta família que
então para lá foi residir.
O senhor
Pinheiro era já então um pequeno comerciante no mercado da cidade de Guimarães,
que complementava os seus rendimentos com o trabalho no campo. Alguns anos
volvidos, aquando da morte de dona Adelaide, a quinta foi doada em testamento à
Ordem de S. Francisco, passando esta instituição a geri-la juntamente com os
rendeiros.
Dos 4 filhos
de António Pinheiro e Clara de Freitas, foi Joaquina Pinheiro que juntamente
com o marido, Domingos da Silva, com o qual casou em 1940, continuou na Quinta
dos Dardos o trabalho dos seus pais. Deve, aliás, dizer-se que é com este
casal, Domingos e Joaquina, que a mística da Quinta dos Dardos assume todo o
seu significado.
Pais de 14
filhos, o senhor Silva e a Quininha dos Dardos, como eram carinhosamente
tratados por toda a gente, deram, desde sempre, um colorido e uma dinâmica diferentes,
não só aos trabalhos agrícolas aí realizados, mas também à vida comunitária em geral. Eram famosas as
suas vindimas, onde se cantava e dançava até de madrugada e onde, certamente,
começaram muitas histórias de amor impulsionadas pela alegria do momento. Não
era, de facto, difícil aos caseiros da Quinta dos Dardos arranjar mão-de-obra
para as suas tarefas, porque a fama das festas após e durante o trabalho era
suficiente para angariar trabalhadores. A alegria e a boa disposição ajudam a
curar muitos males e todos sabiam que jornada nos Dardos era sinónimo de diversão
garantida. Igualmente famosas eram as desfolhadas, onde também marcava presença
a concertina para vários pés de dança no final da festa, sempre regada a bom
vinho e a excelente e farta comida. De facto, a dona Joaquina era uma
cozinheira de mão cheia e fazia questão de servir aqueles que a ajudavam no
trabalho do campo de forma digna, porque defendia ela que “quem trabalha tem
que comer do bom e do melhor”.
Mesmo quando
não era o trabalho a justificar, havia sempre um motivo para se convidar os
amigos e vizinhos para um convívio agradável. Era o caso das reisadas, que,
ainda hoje, deixam saudade a quem nelas participou, bem como os bailes ao fim
de semana. A prova de que nos Dardos se vivia um ambiente diferente está nas tertúlias
ao serão, onde quase todos os dias marcavam presença alguns dos muitos amigos
dos filhos do casal. Esses serões onde se conversava, ria e confraternizava até
bastante tarde permanecem na memória de todos quantos neles participaram, como
testemunho da forma franca e aberta como lá se vivia e encarava a vida. Nunca
se fechava a porta a ninguém, todos os que viessem por bem tinham lugar
garantido no convívio da casa. Esta forma de estar na vida, sempre com respeito
pelos outros e pelas suas opiniões e convicções, teve como consequência uma
enorme abertura de espírito em todos quantos ali viveram e conviveram.
Até mesmo as
festas da freguesia contavam com as fornadas de pão cozido nos Dardos. Mais uma
maneira de ajudar e fazer crescer a comunidade onde estavam inseridos. A
participação cívica de todos os membros da família em tudo quanto à freguesia
dizia respeito era uma constante em todas as áreas.
Ali, mesmo em
épocas de menos abundância, havia sempre uma tigela de sopa e um naco de pão
para matar a fome a quem precisasse. E não eram assim tão poucos os que lá
acorriam, sabendo da generosidade dos donos da casa. Foi comovente ouvir no
funeral da Dona Joaquina, por mais de uma vez, alguém dizer que estava ali
porque ela lhe tinha matado a fome muitas vezes. Sempre generosos e simpáticos,
o senhor Silva e a esposa viviam na certeza de que tudo aquilo que se dá com
vontade e prazer nunca fará falta. Pessoas dotadas de uma gigantesca sabedoria
vinda da experiência eram exímios contadores de histórias de onde saía sempre uma
moral, para quem ouvia, eram verdadeiros momentos de prazer pela forma como
eram contadas.
O maior legado
que este casal deixou aos filhos e netos foi este sentido de partilha e
grandeza de espírito. Deixaram em todos bem aprendida a maior das lições, a de
não julgar ninguém a não ser por aquilo que a pessoa realmente é. Estereótipos
e preconceitos nunca tiveram entrada no dia a dia daquela casa. O facto de
serem 14 irmãos que se ajudaram a criar uns aos outros, sempre com o exemplo
dos pais a servir-lhes de suporte, fez de todos eles pessoas íntegras, honestas
e altruístas e, acima de tudo, grandes amigos.
A escola da
vida foi aquela que os ensinou a ensinar, e não foram precisas grandes letras
para transmitir aos descendentes o que de melhor e mais rico se pode dar a
todas as horas: amizade, proteção e apoio. Diz o ditado chinês que “não se deve
dar o peixe, mas sim a cana para ensinar a pescar”. E foi o que estes pais
deram de mais importante aos seus filhos, ou seja, as ferramentas para se tornarem,
todos, homens e mulheres de coragem e fibra.
Ainda hoje,
continuam a ser “um por todos e todos por um”, fazendo jus ao legado recebido e,
simultaneamente, vão passando esta filosofia e forma de encarar a vida às
gerações vindouras, permanecendo bem enraizado em todos o espírito de família.
Durante muitos
anos, mesmo após a morte dos pais, os filhos continuaram a reunir-se na velha casa,
assim perpetuando a mística daquele lugar. Mesmo depois desta ter passado para
as mãos da Câmara Municipal, os Dardos continuam vivos nas pessoas que lá
viveram.
Os terrenos da
quinta deram lugar ao Pavilhão Multiusos e a casa ganhou novas valências, mas
todos os que por lá passaram de uma maneira ou de outra têm bem presente a
fortuna que ali ganharam.
Marta Pinheiro
(neta dos Dardos)