A igreja que
vive em nós.
Vivo
em creixomil desde que nasci. A minha família, tanto materna como paterna, tem
também aqui as suas origens. Praticamente
todos nós aqui recebemos o baptismo, e todos os outros sacramentos que
marcam a vida dos católicos, e como tal estamos ligados a ela por laços que se
perdem no tempo. A minha história, e por
consequência a história da minha família
confundem-se com este local de culto já tão antigo.
No meu caso particular, são muitas e muito marcantes as
recordações que tenho desta igreja pequenina mas sempre a transbordar de
dignidade. Lembro-me como se fosse hoje do dia em que ali entrei para fazer a
primeira comunhão, era eu uma rapariguinha muito envergonhada. Recordo mais
tarde o dia da minha profissão de fé, já a rapariguinha envergonhada tinha dado
lugar a uma outra bem mais curiosa e questionadora, sempre com uma pergunta na
ponta da língua, e uma vontade imensa de crescer para lá desta fronteira. Mais
tarde foi o crisma, já jovem adulta e a navegar num turbilhão de dúvidas típicas da idade e da própria vida. Tudo isto
para dizer que a minha vida, ficou marcada de forma inquestionável por tudo o
que vivenciei a partir da nossa pequena igreja. Aqui fiz amigos nos muitos anos
de catequese. Conheci pessoas que me marcam até hoje por tudo o que me
ensinaram, e porque me ajudaram a ser a pessoa que sou. Aqui brinquei em
pequena e mais tarde despertei para a vida através das muitas amizades que fiz,
das conversas que tive, das experiências que partilhei.
Não é por tanto de estranhar que muitas das minhas
memórias mais marcantes venham directamente dar a este espaço mais do que simbólico. Onde vi
pessoas se unirem pelo matrimónio em dias de felicidade suprema, mas onde
também assisti a ritos fúnebres de dor e despedida. Como em tudo na vida, os
dois pólos andam inevitavelmente juntos mesmo que distantes, e nenhum de nós lhes escapa.
Para quem é de creixomil, a igreja é um lugar de convergência. Um ponto
de apoio, Um sítio especial de onde
todos têm uma recordação que guardam no
seu íntimo. Muitas das histórias que ouvi contar as minhas avós, mas também à
minha mãe e às minhas tias, tinham a
igreja como palco. Vir à missa aos domingos, com a melhor roupa, e na
perspectiva de poder namoriscar, era o
momento mais alto da semana, aquele pelo qual
todos esperavam de forma ansiosa.
Era também uma forma de esquecer as por
vezes muitas amarguras de vidas nem sempre
facilitadas pela dureza dos tempos. Num Portugal pobre e inevitavelmente atrasado, foi no salão
paroquial que várias gerações de habitantes de creixomil souberam o que era uma
peça de teatro, , uma sessão de cinema. Era para a igreja que a comunidade se voltava, porque nesta então
freguesia rural era o que mais próximo estava, e em quem as pessoas confiavam e sentiam que estava com elas. Esta já não
foia realidade da minha geração, mas foi
a das gerações anteriores, o que acabou
por fazer com que o respeito que os mais velhos tinham por este local de culto
tenha passado para os mais novos.
·
O meu tempo já foi outro, o do Portugal recêm
integrado na então CEE onde parecia haver dinheiro para tudo, e onde todos acreditávamos que tudo iam ser
rosas no futuro. Não foi assim, as rosas não são eternas e lá surgiram os
espinhos, mas a igreja aqui continuou como dantes. já não tinha um papel
tão preponderante a nível da divulgação cultural por exemplo, mas
mesmo assim era lugar central da localidade, o marco no que a geografia social dizia respeito. Ainda hoje assim é, apesar de em
moldes distintos. Tudo mudou muito rapidamente, mas a importância dos rituais católicos continua
a estar muito presente nesta comunidade.
Para mim continua a
ser aqui que faz sentido aproximar-me de deus de forma simbólica. Foi aqui que baptizei o meu filho, e aqui que
ele frequenta a catequese, tal como eu em criança. Mantêm-se
a tradição, sem olhar para trás, e sem esquecer que tudo evoluiu e se
transformou. Continuamos a precisar de
pontos de convergência, de faróis que risquem o céu e nos digam que estamos em casa. Continuaremos
sempre a querer referências sólidas para
nós e para os nossos, e sabemos que a
nossa igreja pequenina vai continuar aqui
a cumprir o seu papel nas nossas vidas.
Marta Pinheiro
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