quarta-feira, 9 de novembro de 2016


   A igreja que vive em nós.

Vivo em creixomil desde que nasci. A minha família, tanto materna como paterna, tem também aqui as suas origens. Praticamente  todos nós aqui recebemos o baptismo, e todos os outros sacramentos que marcam a vida dos católicos, e como tal estamos ligados a ela por laços que se perdem no tempo. A  minha história, e por consequência  a história da minha família confundem-se com este local de culto já tão antigo.

No meu caso particular, são muitas e muito marcantes as recordações que tenho desta igreja pequenina mas sempre a transbordar de dignidade. Lembro-me como se fosse hoje do dia em que ali entrei para fazer a primeira comunhão, era eu uma rapariguinha muito envergonhada. Recordo mais tarde o dia da minha profissão de fé, já a rapariguinha envergonhada tinha dado lugar a uma outra bem mais curiosa e questionadora, sempre com uma pergunta na ponta da língua, e uma vontade imensa de crescer para lá desta fronteira. Mais tarde foi o crisma, já jovem adulta e a navegar num turbilhão de dúvidas  típicas da idade e da própria vida. Tudo isto para dizer que a minha vida, ficou marcada de forma inquestionável por tudo o que vivenciei a partir da nossa pequena igreja. Aqui fiz amigos nos muitos anos de catequese. Conheci pessoas que me marcam até hoje por tudo o que me ensinaram, e porque me ajudaram a ser a pessoa que sou. Aqui brinquei em pequena e  mais tarde despertei para  a vida através das muitas amizades que fiz, das conversas que tive, das experiências que partilhei.

Não é por tanto de estranhar que muitas das minhas memórias mais marcantes venham directamente dar a  este espaço mais do que simbólico. Onde vi pessoas se unirem pelo matrimónio em dias de felicidade suprema, mas onde também assisti a  ritos fúnebres  de dor e despedida. Como em tudo na vida, os dois pólos andam inevitavelmente juntos mesmo que distantes, e  nenhum de nós lhes escapa.    

Para quem é de creixomil, a  igreja é um lugar de convergência. Um ponto de apoio, Um sítio especial  de onde todos têm uma recordação  que guardam no seu íntimo. Muitas das histórias que ouvi contar as minhas avós, mas também à minha mãe e às minhas tias,  tinham a igreja como palco. Vir à  missa  aos domingos, com a melhor roupa, e na perspectiva de poder namoriscar, era  o momento mais alto da semana, aquele pelo qual  todos  esperavam de forma ansiosa. Era também uma forma de esquecer  as por vezes muitas amarguras de vidas nem sempre  facilitadas pela dureza dos tempos.  Num Portugal pobre e  inevitavelmente atrasado, foi no salão paroquial que várias gerações de habitantes de creixomil souberam o que era uma peça de teatro, , uma sessão de cinema.  Era para a igreja que a  comunidade se voltava, porque nesta então freguesia rural era o que mais próximo estava, e  em quem as pessoas confiavam e  sentiam que estava com elas. Esta já não foia  realidade da minha geração, mas foi a  das gerações anteriores, o que acabou por fazer com que o respeito que os mais velhos tinham por este local de culto tenha passado para  os mais novos.

·          O  meu tempo já foi outro, o do Portugal recêm integrado na então CEE onde parecia haver dinheiro para tudo, e  onde todos acreditávamos que tudo iam ser rosas no futuro. Não foi assim, as rosas não são eternas e lá surgiram os espinhos, mas a igreja aqui continuou como dantes. já não tinha um papel tão  preponderante a  nível da divulgação cultural por exemplo, mas mesmo assim era lugar central da localidade, o marco no que a  geografia social dizia  respeito. Ainda hoje assim é, apesar de em moldes distintos. Tudo mudou muito rapidamente, mas a  importância dos rituais católicos continua a  estar muito presente nesta comunidade.

Para mim continua a  ser aqui que faz sentido aproximar-me de deus de forma simbólica.  Foi aqui que baptizei o meu filho, e aqui que ele frequenta  a catequese, tal como eu em criança. Mantêm-se a tradição, sem olhar para trás, e sem esquecer que tudo evoluiu e se transformou.  Continuamos a precisar de pontos de convergência, de faróis que risquem o céu e  nos digam que estamos em casa. Continuaremos sempre a  querer referências sólidas para nós e para os nossos, e  sabemos que a nossa igreja pequenina vai continuar aqui  a cumprir o seu papel nas nossas vidas.

Marta Pinheiro

 

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