sábado, 4 de junho de 2016


Nos últimos dias começo a olhar para dentro de mim. Como se de repente eu conseguisse focar a minha luz interior e a a nalisásse à lupa lentamente.

Gosto da nova mulher que renasce pouco a pouco depois do vendaval. Desta vez resolvi não colar pedaços de nada. Renasci sem sicatrizes, o que desencadeou em mim uma estranha sensação de conforto e leveza. Gosto desta rapariga madura e reservada, que se sente bem consigo mesma e  caminha a paços lentos mas seguros.

Mudei tanto desde que me conheço, que até édifícil de acreditar. Deixei de pensar no imediato, de querer o aqui e o agora. Deixei de mergulhar em turbilhões e redemoinhos, passei a caminhar em vez de correr.

Aprecio esta serenidade conquistada com muitos amargos de boca.

Vou construindo a minha casa peça a peça, dia a dia.

Ao fim de tanto tempo, posso finalmente dizer sem  rodeios nem subterfúgios que sou uma mulher feita de muitos fragmentos conquistados a custo, mas firmemente assentes na minha rocha.

 

Penso muitas vezes naquilo que teria sido diferente caso me tivesse esforçado por mudar o curso da minha vida. Mas mudar o curso da minha vida seria mudar demazeadas coisas. Faço isto apenas como mero instrumento de análise, porque realmente não vale a pena fazer deste encadear de hepóteses um objectivo.


Gosto dos meus livros empilhados na minha cabeça em retalhos e fragmentos muito bem ordenados e sequenciados.

Gosto de gatos, do seu ar misterioso e límpido de quem volta sempre  para junto de quem gosta. Gosto de os acariciar e sentir a pureza e a meiguice dos seus gestos.

  Gosto de me deixar levar pelo som dos pássaros nos fins de tarde enquanto desfruto da calma e da quietude dos dias cronometrados.

Gosto de chocolate. Não gosto de sabores amargos. Gosto  de pegar no meu filho e sentir aquele corpinho pequenino e doce a aquecer-me a alma e os dias. Gosto de o ouvir cantar com voz suave e meiga a transbordar de inocência e magia. Gosto do riso fácil de criança que me transporta para um mundo que é sempre claro e límpido. Adoro aquele rosto macio  onde a beleza maior tem a sua definição mais exacta.

Preciso como do ar que respiro, daquele movimento cadenciado dos seus paços, do vigor dos seus gestos, da frescura das suas palavras. A  minha vida bifurca-se, entrinca-se, corre e  vai-se colorindo com a dele, como um só sentido em duas direcções.

Gosto de respirar o ar puro das manhãs de primavera, e acreditar que com ele vêm sempre notícias boas, dias grandes, e  tardes de sol.

Não gosto do escuro.

Gosto de  contemplar uma casa arrumada com perfume a limpeza e  ideias novas.

Não gosto do vento forte. Baralha-me as ideias e o curso das horas.

Gosto de cantar. De pintar a vida com notas musicais de entrega.

Não gosto da despedida. De dizer adeus até sabe-se lá quando sem voltar a ter o hábito das conversas, dos sorrisos e  dos murmúrios.

Não gosto de gritos. Trazem agarrados o junco do desespero, sejam de raiva ou de triunfo.

Gosto da lentidão das manhãs de domingo, onde temos por momentos a ilusão de que comandamos o tempo e as horas.

Gosto de poesia, de a ler e saborear de  vagar no silêncio da noite.

Gosto de me deixar ficar à beira mar, a ouvir as ondas e a imaginar barcos carregados de sonhos e  espectativas  a ir e vir com as marés.

Sou alguém que cultiva a  amizade como uma planta rara e belíssima, cheia de flores e  vida.

 

   Julho de 2013

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