Nos últimos dias começo a olhar para dentro de mim. Como se
de repente eu conseguisse focar a minha luz interior e a a nalisásse à lupa
lentamente.
Gosto da nova mulher que renasce pouco a pouco depois do
vendaval. Desta vez resolvi não colar pedaços de nada. Renasci sem sicatrizes,
o que desencadeou em mim uma estranha sensação de conforto e leveza. Gosto
desta rapariga madura e reservada, que se sente bem consigo mesma e caminha a paços lentos mas seguros.
Mudei tanto desde que me conheço, que até édifícil de
acreditar. Deixei de pensar no imediato, de querer o aqui e o agora. Deixei de
mergulhar em turbilhões e redemoinhos, passei a caminhar em vez de correr.
Aprecio esta serenidade conquistada com muitos amargos de
boca.
Vou construindo a minha casa peça a peça, dia a dia.
Ao fim de tanto tempo, posso finalmente dizer sem rodeios nem subterfúgios que sou uma mulher
feita de muitos fragmentos conquistados a custo, mas firmemente assentes na
minha rocha.
Penso muitas vezes naquilo que teria sido diferente caso me
tivesse esforçado por mudar o curso da minha vida. Mas mudar o curso da minha
vida seria mudar demazeadas coisas. Faço isto apenas como mero instrumento de
análise, porque realmente não vale a pena fazer deste encadear de hepóteses um
objectivo.
Gosto dos meus livros empilhados na minha cabeça em retalhos e
fragmentos muito bem ordenados e sequenciados.
Gosto de gatos, do seu ar misterioso e límpido de quem volta sempre para junto de quem gosta. Gosto de os
acariciar e sentir a pureza e a meiguice dos seus gestos.
Gosto de me deixar levar pelo som dos pássaros
nos fins de tarde enquanto desfruto da calma e da quietude dos dias
cronometrados.
Gosto de chocolate. Não gosto de sabores amargos. Gosto de pegar no meu filho e sentir aquele corpinho
pequenino e doce a aquecer-me a alma e os dias. Gosto de o ouvir cantar com voz
suave e meiga a transbordar de inocência e magia. Gosto do riso fácil de
criança que me transporta para um mundo que é sempre claro e límpido. Adoro
aquele rosto macio onde a beleza maior
tem a sua definição mais exacta.
Preciso como do ar que respiro, daquele movimento cadenciado dos
seus paços, do vigor dos seus gestos, da frescura das suas palavras. A minha vida bifurca-se, entrinca-se, corre e vai-se colorindo com a dele, como um só
sentido em duas direcções.
Gosto de respirar o ar puro das manhãs de primavera, e acreditar que
com ele vêm sempre notícias boas, dias grandes, e tardes de sol.
Não gosto do escuro.
Gosto de contemplar uma casa
arrumada com perfume a limpeza e ideias
novas.
Não gosto do vento forte. Baralha-me as ideias e o curso das horas.
Gosto de cantar. De pintar a vida com notas musicais de entrega.
Não gosto da despedida. De dizer adeus até sabe-se lá quando sem
voltar a ter o hábito das conversas, dos sorrisos e dos murmúrios.
Não gosto de gritos. Trazem agarrados o junco do desespero, sejam de
raiva ou de triunfo.
Gosto da lentidão das manhãs de domingo, onde temos por momentos a
ilusão de que comandamos o tempo e as horas.
Gosto de poesia, de a ler e saborear de vagar no silêncio da noite.
Gosto de me deixar ficar à beira mar, a ouvir as ondas e a imaginar
barcos carregados de sonhos e
espectativas a ir e vir com as
marés.
Sou alguém que cultiva a
amizade como uma planta rara e belíssima, cheia de flores e vida.
Julho de 2013
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