sábado, 11 de junho de 2016


A praia 


Era já tarde quando me deixei ficar por ali. O sol estava a pôr-se e a areia branca da praia mostrava os meus paços marcados pela lentidão do dia e da vontade. O mar ajitava-se contra as rochas, onde ia esculpindo um triunfo lento. Com o azul da água contrastava o negro que se aproximava no céu. Os barcos iam balançando diante de min como folhas abandonadas ao vento em dias de Outono. Havia pedaços de navios encalhados na viragem dos tempos, sem mar nem leme, rodiados de prosa salgada perante a ligeireza da paisagem. E eu ali me ia deixando estar, a ver passar as horas ao mesmo tempo que meditava vagarosamente seguindo o ritmo das ondas, ora mais depressa, ora mais devagar. Ia chegando a noite, e o mar cobria-se de repente de um manto dubiu dezenhado à pressa pelas fadas que tricotavam no céu uma manta de cores diverças. Aqui e além ia-lhe bordando matises negros para onde levavam as nuvens. Sem querer deixei-me adormecer por ali, em busca da maré que me enchesse de azul e me ancorasse nela até ao fim dos dias. Sonhei com marinheiros alados, e com a  ilusão das barcas naufragadas. Desejei marés vivas de emoção onde eu provasse vinhos quentes oferecidos por baco ao amanhecer. Acreditei emviajens pelos sentidos entre as grutas escondidas no seio das algas.
Mas tudo o que consegui, foi o impiadoso toque dos raios de sol, que me acordaram ao som do regresso dos navios.

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